2010
03.17

A estreia dos britânicos Florence and The Machine em palcos nacionais esperava-se com enorme antecipação. Numa sala totalmente esgotada na Aula Magna em Lisboa (para tristeza das várias pessoas que empenhavam cartazes à porta em busca de um almejado bilhete), o público entrou inspirado e receptivo logo na abertura do concerto pelas mãos do projecto londrino Sian Alice Group. Uma mão cheia de canções psychedelic-rock orgânicas e experimentais pela voz intensa da vocalista Sian Alice Ahern, a construir paisagens sonoras reminiscentes de PJ Harvey ou Tori Amos, e que deixou a plateia em ponto de ebulição, em especial, com a entrada de Florence Welch a acompanhar a percussão frenética no tema final.

Feita uma pequena pausa para a mudança dos instrumentos, deu-se o início de um concerto fenomenal com a entrada de cinco músicos (4 homens na bateria, baixo, guitarra e harpa e uma belíssima loira de saltos de 10cm na teclas), que só pecou pela fraca acústica da sala, visivelmente aquém de um espectáculo desgarrado como este. A apresentação de Lungs, álbum vencedor de um BRIT Award em 2009 e 2010, viveu da atitude desta ninfa eléctrica, mulher anjo/demónio de energia imparável e aspecto franzino, esvoaçante na sua túnica branca translúcida a contra-luz.

O assombroso Howl abriu o desfile de 13 canções com uma explosão de aplausos do público agitado e a primeira demonstração do poder vocal arrepiante de Welch. Após o encantamento do belíssimo som da harpa, seguiram-se os elementos rock do álbum, com uma versão acelerada de Kiss with a Fist e Hurricane Drunk e o sinal da empatia de Florence Welch com o público: com um abraço a uma fã claramente emocionada e depois ao chamar a plateia em êxtase para junto do palco. Welch conquistou-me com a sua figura de menina inocente, com o ar querido e pueril com que agradecia com sinceridade a aprovação do público português neste último concerto da digressão europeia, mas que rapidamente se eclipsava numa força da natureza errante, etérea e descalça, bailarina hipnotizante de violência tribal. Um furacão.

A celebração prosseguiu com o menos conhecido Hardest of Heart, tema incluído na re-edição de luxo de Lungs, e foi saltitando por todo o álbum com os poderosos My Boy Builds Coffins, Between Two Lungs ao que se seguiu Drumming, em versão TNT, muito mais explosiva que no longa-duração, mas que levou o público rouco ao delírio com a adrenalina da vocalista. Cada música foi cantada, aplaudida, trauteada até à exaustão nesta sala suada e deslumbrada como há muito não sentia. O concerto caminhava para o final com os emotivos Cosmic Love, I’m not Calling you a Liar e Bliding que desafiaram os mais afinados num climax sónico impressionante. Mas foi com o aclamado primeiro single Dog Days are Over que Florence pôs os batimentos cardíacos à prova numa insana sessão de saltos, que só confirmaram que esta banda respira mais rock que baladas pop.

Entre tentativas de comunicar num português arcaico um “vocês são bué fixes” ou “eu amo vocês, Florence e a sua máquina bem oleada de músicos voltaram para um encore poderoso, com o muito esperado You’ve Got the Love, e um bem ensaiado Rabbit Heart (Raise it Up) com o público a apoiar os coros apoteóticos de braços no ar.

Um concerto que virou a Aula Magna do avesso, com momentos de teatralidade e intensidade vocal impressionante, libertações de energia incompreensível, que Welch dominou com incrível carisma sedutor de forma tão subtil que pareceu fácil. E assim voltou a sair aos pulinhos, este furação de cabelos ruivos, espalhando abraços e flores pelo público eufórico que parecia acabado de sair de uma aula de ginástica.

Fotos: Manuel Lino


3 comments so far

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  1. espero que tenhas razão e que possa ver Florence brevemente num festival.

    Abraço.

  2. Gostei muito da forma como conseguiste sistematizar o que viste, eu comecei a escrever um texto e parei ao fim de três linhas, há tanta coisa para dizer. Fico-me pelas fotos e pelos vídeos no meu blog. É que foi mesmo bom demais!!! :)

  3. Obrigado JP. Confesso que também tive alguma dificuldade em traçar uma linha condutora, de tantos momentos que ainda fervilhavam na minha cabeça.

    Ainda por cima porque sei que sou super parcial porque tenho Lungs no topo das minhas preferencias de sempre. Apaixonei-me por aquele álbum e tinha enormes expectativas para o concerto.

    Felizmente não consegui apontar uma única falha, senão a acústica. Florence Welch é um doce a falar e um animal selvagem quando começa a cantar. Saí em êxtase da Aula Magna ;)

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